Só não previu quem planejou…
Prof. Tania Zagury
Dez/06
Ninguém fala em outra coisa: o Brasil do século XXI não sabe ler ou não entende o que mal lê. Todos estão pasmos. Menos os professores, posso afirmar. Eles, que nos últimos 30 anos de mudanças na área educacional lastimavelmente não foram chamados a dar o seu testemunho, nem lhes ouviram as dúvidas e as certezas. Quem está na frente de batalha, teria dito: isso não vai dar certo…
Para quem não sabe, o método fônico, que começa a ser apresentado como ‘novidade’, já se usava antes, quando comecei a lecionar. O professor escolhia a cartilha e ensinava a partir do que sabia fazer. Os professores que, da noite para o dia, passaram a alfabetizar nos moldes ideovisuais, que Emília Ferrero preconiza, o fizeram determinados a acertar, ainda que não estivessem convictos de que era o melhor para seus alunos. Porque, apesar do tanto que se fala em gestão democrática, os docentes continuam meros executores.
Não precisamos de reformas de ensino no Brasil, menos ainda daquelas que alteram apenas nomenclaturas ou que pseudo-adotam o que, de repente, alguém determinou que é a nova ‘fórmula mágica’ de ensinar.
Precisamos avaliar o que ocorre nas escolas, ouvindo cada professor sobre as dificuldades e as necessidades, para então buscar saná-las. Precisamos respeitar quem faz, quem operacionaliza. O melhor método é o que funciona. Nossas crianças e jovens precisam de resultados de verdade já.
Fomos alfabetizados pelo bê-á-bá e, coisa estranha, sabemos ler! Aprendi, quando cursava o antigo Ensino Normal (há mais de trinta anos), que a criança aprende do que lhe é próximo para o que é distante; do simples para o complexo; do concreto para o abstrato. Por isso usávamos o método fônico, que atende a essas características.
De repente, nos disseram que o que aprendêramos estava errado. Então, como é que nossos alunos aprendiam? Eu, e milhares de outros professores, já tínhamos alfabetizado tantos, e nossos alunos liam, podem acreditar. Mais: entendiam o que liam. E faziam contas e resolviam problemas.
Só quem esteve todos esses anos em sala de aula sabe o que se sofre tentando conseguir o impossível. Porque só é possível bem utilizar o construtivismo em turmas muito pequenas, nas quais o professor faz um acompanhamento individual.
A mudança, apenas metodológica, deixou o professor em sala de aula com os mesmos ínfimos recursos da escola pública e a pletora de alunos carentes de tudo.
Sou a favor do progresso e da mudança, desde que alicerçados em estudos e acompanhamento sistemáticos, que os embasem. Tomam-se medidas caras e aleatórias: computadores para parte das escolas públicas, por exemplo. O computador chegou, mas os professores têm outras coisas para fazer - antes do caviar, o ‘feijão-com-arroz’. Se tivessem ouvido os docentes, teriam sabido que precisavam mesmo era de ‘menos alunos nas turmas e mais horas de aula’.
Outro grave baque na qualidade do ensino se deu com o endeusamento da escola não-diretiva, transplantada da psicanálise para a sala de aula. Corrigir o aluno passou a ‘dar trauma’. Riscar em vermelho os erros, nem pensar. Provas revelaram-se intervenções ameaçadoras. Memorizar qualquer coisa tornou-se feio. Herança que o rogerianismo nos legou: não se ensina nada a ninguém.E o resultado aí está.
Além disso, hoje, cada problema social que surge vira tema transversal do currículo: educação sexual, cidadania, ética, educação para o trânsito, educação ambiental etc. Tudo bem, mas deram condições ao professor para fazer tudo isso e ainda ensinar a ler, escrever e interpretar?
O fracasso tinha que ocorrer. Era previsível. Com tantos encargos e uma metodologia que não podem executar, os professores teriam que, no mínimo, receber treinamento permanente, antes de se executarem os novos modelos (e, claro, salários incrementados na proporção das tarefas).
O pior aconteceu depois: quando tudo já ia mal, adotou-se a progressão continuada e o ensino por ciclos - para dar vazão à demanda de matrículas, agravando terrivelmente a questão da qualidade.
A moda do momento é a ‘inclusão’ de alunos com necessidades especiais. Ótimo. Politicamente corretíssimo. Mas a verdadeira inclusão tem que começar pela melhora da qualidade do ensino de toda a população.
Temos que deter o processo atual, no qual o aluno termina o ensino fundamental - quando termina - quase tal qual estava quando entrou. Essa é a verdadeira exclusão: de posse do seu diploma, mas com precária aprendizagem, o jovem, especialmente o de classe social menos favorecida, que tanto precisa de trabalho, é ejetado do mercado de trabalho sem dó nem piedade. Afinal, até concurso para gari exige que se saiba ler e escrever direito!
Ouçamos quem executa. Eles nos dirão como evitar as tempestades do desencanto…
em http://www.taniazagury.com.br/artigos.asp?cdc=3008